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Conflito eleva diesel e aperta margens do açúcar na safra 2026/27

Foto do autor Jair Reinaldo
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Conflito eleva diesel e aperta margens do açúcar na safra 2026/27
Alta do diesel provocada pelo avanço do petróleo pressiona custos das usinas e pode alterar o mix entre açúcar e etanol no Centro-Sul.

Com petróleo em alta, diesel já subiu mais de R$ 1 por litro e passou a pressionar os custos das usinas, reduzindo a competitividade do açúcar e fortalecendo o apelo do etanol na safra 2026/27

A escalada do conflito no Oriente Médio já começa a gerar efeitos concretos sobre o setor sucroenergético brasileiro. Com a disparada do petróleo no mercado internacional, o diesel ficou mais caro no Brasil e passou a pressionar os custos de produção de açúcar e etanol no Centro-Sul, justamente às vésperas da safra 2026/27.

Segundo análise da StoneX, o avanço dos combustíveis cria um cenário de forte pressão sobre as margens das usinas. Embora o petróleo mais valorizado também sustente os preços do etanol e possa melhorar a receita com biocombustíveis, o impacto imediato do diesel sobre a operação agroindustrial pesa mais diretamente sobre os custos, especialmente no campo.

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Diesel dispara e pressiona estrutura de custos

Desde 28 de fevereiro, o petróleo Brent acumulou valorização superior a 40%, refletindo a instabilidade geopolítica e os temores sobre o abastecimento global. No Brasil, esse movimento foi rapidamente sentido nos combustíveis.

Estimativas de Preço de Paridade de Importação (PPI) apontaram alta de 48% na gasolina e de 91% no diesel no período. Nas bombas, o diesel B já avançou mais de R$ 1,00 por litro no país, com elevação média de R$ 1,26 por litro, ou 20,6%, até 21 de março. Em São Paulo, a alta registrada foi de 12%.

Para o setor sucroenergético, esse aumento tem peso direto. De acordo com a StoneX, o diesel possui correlação de 97,46% com o custo agroindustrial total do setor nas últimas 19 safras, o que mostra a relevância do combustível na composição de despesas.

Na prática, cada aumento de R$ 1,00 por litro no diesel pode elevar os custos entre R$ 29 e R$ 36,5 por tonelada de cana, pressionando fortemente a operação das usinas no Centro-Sul.

Açúcar opera perto do equilíbrio

O efeito mais imediato dessa pressão aparece nas margens do açúcar. Para a safra 2026/27, a StoneX estima o custo de produção do açúcar VHP no Centro-Sul em R$ 1.730 por tonelada na base usina e em R$ 1.875 por tonelada na base FOB.

Considerando o câmbio entre R$ 5,20 e R$ 5,30 por dólar, o ponto de equilíbrio do açúcar no contrato #11 varia entre US¢ 15,40 e US¢ 17,01 por libra-peso. Como as cotações estavam pouco acima de US¢ 15,50 por libra-peso no fim de março, o setor opera muito próximo da linha de equilíbrio.

Isso significa que, embora o mercado ainda ofereça alguma sustentação, o espaço para ganho nas margens fica bastante limitado, especialmente diante do avanço dos custos logísticos e operacionais.

Etanol ganha força na estratégia das usinas

Se, por um lado, o diesel pressiona o custo da operação, por outro, o petróleo em alta melhora a competitividade do etanol frente à gasolina, o que pode favorecer a receita com biocombustíveis.

Segundo o analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Marcelo Di Bonifacio Filho, esse cenário cria uma dualidade para o setor. Enquanto o petróleo mais caro tende a sustentar os preços do etanol, o diesel encarece as atividades agrícolas e reduz a rentabilidade do açúcar.

Diante disso, a tendência é de que as usinas aumentem a destinação da cana para o etanol na safra 2026/27. Com margens mais apertadas no açúcar e melhor perspectiva relativa para os biocombustíveis, a mudança no mix produtivo ganha força como resposta estratégica ao novo cenário de custos.

Fertilizantes também entram no radar

O conflito no Oriente Médio também já provoca reflexos no mercado global de fertilizantes. Produtos como ureia e MAP registram alta, em meio a restrições de oferta na região, que tem peso importante na produção de amônia e enxofre.

Além disso, o encarecimento do gás natural e dos fretes marítimos amplia a pressão sobre os insumos agrícolas. Apesar disso, no caso brasileiro, o impacto tende a ser mais diluído no curto prazo, já que boa parte das compras de fertilizantes ocorre no segundo semestre.

Mesmo assim, o movimento reforça o ambiente de cautela para o setor, que já enfrenta um quadro de custos mais sensível por causa do diesel.

Safra 2026/27 terá ajustes e atenção redobrada

Apesar da pressão atual, a StoneX avalia que alguns fatores podem aliviar parcialmente o custo total da próxima temporada. Entre eles estão o ganho de produtividade, o menor investimento no canavial e a expectativa de queda no preço do ATR, abaixo de R$ 1,00 por quilo.

Esses fatores podem reduzir o custo total em cerca de R$ 45 por tonelada frente à safra anterior. Além disso, a queda de 10,5% no custo da cana de terceiros pode gerar economia adicional de R$ 35 por tonelada.

Ainda assim, o aumento do diesel deve continuar sendo o principal vetor de pressão no curto prazo. Para o setor sucroenergético, a safra 2026/27 deve exigir ajustes finos de estratégia, com atenção redobrada ao mix entre açúcar e etanol, ao comportamento do petróleo e à evolução dos custos operacionais.

Conflito externo já altera decisões no campo e na indústria

O avanço da crise no Oriente Médio mostra como fatores externos podem rapidamente mudar a dinâmica do setor no Brasil. No caso da cana, o efeito vai além da volatilidade de mercado e já começa a influenciar diretamente decisões industriais e comerciais.

Para o produtor e para as usinas, o momento exige monitoramento constante dos combustíveis, das margens e da competitividade relativa entre açúcar e etanol. Com o diesel pressionando custos e o etanol ganhando atratividade, a safra 2026/27 tende a ser marcada por decisões mais estratégicas e por uma disputa mais intensa pelo melhor destino da cana.

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