Crédito rural cai 20% e custo da soja passa de R$ 5 mil em MS

Estudo aponta encolhimento no crédito rural oficial, taxa de juros de 12,1% ao ano e escalada na carteira problemática
Crédito rural cai 20% e custo da soja passa de R$ 5 mil em MS
Custo de produção da soja passa de R$ 5 mil por hectare em meio ao crédito mais caro Foto: Aprosoja MS / Divulgação
Foto do autor Jair Reinaldo
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O financiamento da atividade agrícola em Mato Grosso do Sul atravessa um período de severo estrangulamento de liquidez. Na safra 2025/26, as contratações de crédito rural no estado totalizaram R$ 14,9 bilhões, uma retração de 20,2% frente ao ciclo anterior e expressivos 38,4% abaixo do pico histórico registrado na temporada 2023/24. O cenário de restrição agravou-se no início da safra 2026/27: entre julho e setembro, o volume contratado somou R$ 3,1 bilhões, queda de 29% em relação a igual intervalo do ano passado.

O diagnóstico consta no Informativo Econômico 16/2026, produzido pela Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS). A entidade alerta que o arrocho de recursos coincide com a alta nos custos de produção e com a deterioração do perfil de solvência das propriedades.

"Os dados mostram que a dificuldade do produtor rural vai além da redução no volume de crédito contratado. Temos custos de produção elevados, juros que encarecem o financiamento e instituições financeiras mais criteriosas na concessão dos recursos. Esse conjunto de fatores exige atenção ao planejamento financeiro e às condições necessárias para conduzir a safra", analisa o economista da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes.

Custeio encolhe e custo da soja rompe R$ 5 Mil por hectare

O corte de liquidez concentrou-se drasticamente nas linhas de custeio, utilizadas para a compra de fertilizantes, sementes e defensivos. Em Mato Grosso do Sul, o montante para custeio geral desabou de R$ 10,8 bilhões na safra 2022/23 para R$ 5,6 bilhões em 2025/26. No caso específico da soja, as operações despencaram de R$ 6,4 bilhões em 2023/24 para apenas R$ 3,4 bilhões em 2025/26, reduzindo a área financiada de 1,54 milhão para 710 mil hectares — cobrindo somente 15% do cultivo da oleaginosa no estado.

Além da escassez de oferta, o custo do capital tornou-se proibitivo: a taxa média ponderada do custeio no estado bateu 12,1% ao ano, superando a média nacional de 10,5%.

Paralelamente, a planilha de campo ficou mais pesada: implantar um hectare de soja em Mato Grosso do Sul na temporada 2026/27 exige R$ 5.024,82, dos quais R$ 3.078,63 são destinados diretamente ao pacote químico e genético. Para a área projetada de 4,874 milhões de hectares, o setor necessita de R$ 24,5 bilhões em capital de giro (sendo R$ 15 bilhões exclusivamente para insumos). Como o crédito rural oficial cobriu apenas 13,7% desse montante, o produtor viu-se obrigado a recorrer a tradings, revendas, operações de barter e CPRs com custos financeiros superiores.

Carteira problemática atinge 27,1% e RJs disparam

A perda de rentabilidade refletiu-se nos balanços bancários. Dados do Banco Central citados no relatório indicam que, em agosto de 2026, o saldo total do crédito rural no estado era de R$ 47,2 bilhões. Desse montante, R$ 12,8 bilhões — o equivalente a 27,1% da carteira — foram classificados como problemáticos (operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas ou em renegociação forçada). Em dezembro de 2022, esse percentual era de meros 2,5%.

Essa espiral de liquidez impulsionou os pedidos de recuperação judicial (RJ) no agronegócio sul-mato-grossense. Levantamento da Serasa Experian aponta que o estado somou 216 pedidos em 2025 (alta de 118%, quarta posição no ranking nacional) e iniciou o primeiro trimestre de 2026 com 38 pedidos adicionais (+52%).

A pressão não foi aliviada pelo Plano Safra 2026/27. Embora o governo federal tenha anunciado R$ 525,1 bilhões nominais (+1,7%), o valor representa retração real de 2,4% quando descontada a inflação. Mais grave para a semeadura, os recursos federais carimbados para custeio e comercialização sofreram corte nominal de 7,2%, caindo de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões.

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