A rápida expansão das usinas de etanol de milho no Centro-Oeste brasileiro estabeleceu uma nova fronteira de demanda no agronegócio: a oferta contínua de biomassa florestal para alimentar as caldeiras a vapor. Ao contrário das destilarias convencionais de cana-de-açúcar — autossuficientes na geração de calor pela queima do bagaço da moagem —, as unidades dedicadas exclusivamente ao cereal demandam insumos externos, especialmente cavacos e resíduos de madeira de eucalipto, transformando a silvicultura em fator determinante para a viabilidade dos investimentos.
Em Mato Grosso do Sul, a arrancada desse segmento apoia-se em uma conjuntura florestal consolidada. Conforme dados do projeto SIGA-MS, acompanhados pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS), o estado contabiliza 1,985 milhão de hectares de eucalipto na safra 2025/2026. O parque florestal, desenvolvido prioritariamente para abastecer os megacomplexos de celulose em polos como Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo, garante uma estrutura instalada de viveiros, maquinário de colheita e frotas de transporte que reduz os gargalos iniciais de fornecimento.
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Contudo, a disponibilidade regional não elimina os desafios operacionais. Conforme avalia o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, o frete da madeira é o elemento mais sensível na equação das indústrias: "O crescimento da indústria de etanol de milho amplia a demanda por biomassa e cria uma nova variável econômica para o setor. Não basta olhar apenas para a quantidade de madeira disponível no Estado. É preciso avaliar onde essa madeira está, qual é o seu custo de produção e transporte e quanto desse estoque poderá efetivamente ser destinado à geração de energia. Em biomassa, a localização é fundamental: uma floresta distante da indústria pode anular qualquer margem de competitividade."
A dimensão dessa demanda futura é ilustrada em projeção da Consultoria Agro do Itaú BBA, que estima que a capacidade instalada de etanol de milho no Brasil salte de 10,9 bilhões de litros em 2025 para 25,3 bilhões de litros até 2030. Em Mato Grosso, estado vizinho e líder da atividade, a necessidade projetada de 383 mil hectares de floresta energética em 2030 confronta uma base atual de apenas 165 mil hectares, indicando um déficit de cerca de 218 mil hectares. Embora Mato Grosso do Sul detenha uma área florestal superior, o mercado local ainda carece de um mapeamento público de balanço térmico para dimensionar a disputa entre usinas de biocombustíveis e fábricas de celulose.
Atração de investimentos e agregação de valor ao cereal
A interiorização das plantas industriais redefine a liquidez do milho sul-mato-grossense. Em Sidrolândia, a Inpasa obteve aval da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para expandir sua operação para uma capacidade anual de 800 milhões de litros de etanol, 480 mil toneladas de grãos secos de destilaria com solúveis (DDGS), 46 mil toneladas de óleo de milho e 465 GWh de bioeletricidade, somando-se à unidade de Dourados.
Outro marco industrial é conduzido pela Atvos em Nova Alvorada do Sul. Com investimento anunciado superior a R$ 1 bilhão, a empresa iniciou a construção de sua primeira usina de etanol de milho integrada à unidade Santa Luzia, projetada para processar 642 mil toneladas de milho por ano e entregar 273 milhões de litros de biocombustível, 183 mil toneladas de DDG e 13 mil toneladas de óleo. A operação funcionará integrada a sistemas bioenergéticos prévios, incluindo uma planta de biometano abastecida por vinhaça e torta de filtro oriundas da cana, que recebeu mais de R$ 350 milhões.
Para os próximos anos, a Aprosoja/MS orienta os produtores a monitorarem três eixos centrais: o ritmo de ativação de novas plantas processadoras, as oscilações regionais de preço do metro cúbico de madeira e o raio logístico de transporte, assegurando decisões fundamentadas na precificação da safra física e no mercado de terras.
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