A safra de trigo em São Paulo deve ter redução de área em 2026, com algumas cooperativas já projetando quedas de até 20% no plantio. O recuo reflete um cenário de preços internacionais pressionados, custos elevados de produção e incertezas no mercado global, fatores que têm levado produtores a rever o planejamento das culturas de inverno.A avaliação foi apresentada durante a primeira reunião do ano da Câmara Setorial do Trigo de São Paulo, realizada na última quinta-feira (5), na sede da Cooperativa Agroindustrial de Capão Bonito (CACB). O encontro reuniu representantes de cooperativas, analistas de mercado e lideranças do setor para discutir as perspectivas da próxima safra.
Segundo o presidente da Câmara Setorial, Ruy Zanardi, o momento exige cautela no campo. Embora o trigo continue sendo uma alternativa importante para o período de inverno, o cenário internacional menos favorável pode reduzir o interesse dos produtores. Ainda assim, ele destaca que a cultura segue estratégica no sistema produtivo, principalmente por contribuir para o aumento da produtividade da soja na rotação de culturas.
Colheita do trigo avança no Brasil sob riscos com chuvas
Importações de trigo recuam com avanço da colheita no Brasil
Trigo sobe no Brasil e no exterior com paralisação logística russa
Cooperativas já projetam redução de área -Os levantamentos apresentados por cooperativas mostram que o recuo no plantio já começa a aparecer nas projeções regionais.Na Capal Cooperativa Agroindustrial, a estimativa é de redução de cerca de 20% na área cultivada em relação ao ciclo anterior. De acordo com o coordenador técnico Airton Rodrigues, o produtor tem avaliado com mais cuidado os riscos envolvidos no cultivo. Além das incertezas de mercado, fatores climáticos como granizo e variações no regime de chuvas também pesam na decisão de investimento.
Na Castrolanda, a área de trigo deve cair de 5.700 para 4.590 hectares, movimento influenciado também pelo atraso na colheita da soja. Com a janela de plantio mais curta, muitos produtores acabam iniciando a safra de inverno com menor margem financeira, o que dificulta manter o mesmo nível de investimento.
Já a Cooperativa Holambra projeta estabilidade, com cerca de 25 mil hectares, mas observa o avanço da cevada, cuja área deve crescer de 2 mil para 5 mil hectares nesta temporada. A mudança indica que produtores também buscam alternativas mais competitivas dentro do próprio portfólio de culturas de inverno.
Outro ponto levantado por cooperativas foi o impacto dos custos de produção. No caso da Ourosafra, a preocupação se concentra principalmente no preço de fertilizantes nitrogenados e combustíveis, influenciados pelo cenário geopolítico internacional.
Janela da soja também influencia decisões -A dinâmica da safra de verão também tem influenciado o planejamento do trigo. Na região de Capão Bonito, por exemplo, o ciclo da soja se estendeu cerca de 30 dias além do previsto, o que reduziu a janela para implantação das lavouras de inverno.Com isso, parte dos produtores tem optado por arriscar no milho safrinha tardio, em vez de migrar para o trigo. Mesmo assim, técnicos destacam a eficiência operacional das propriedades, com casos de semeadura ocorrendo até 24 horas após a colheita da soja, aproveitando ao máximo a janela disponível.
Mercado internacional pressiona preços -O cenário externo é apontado como um dos principais fatores de cautela para a safra de 2026. Segundo análise apresentada pelo especialista da StoneX, Jonathan Pinheiro, o mercado global vive um momento de oferta elevada e estoques confortáveis, o que limita a possibilidade de recuperação nos preços.A Argentina, um dos principais fornecedores de trigo para o Brasil, tem registrado safras expressivas e ampliado sua presença no mercado internacional, inclusive conquistando novos compradores como a China e mantendo forte participação em países asiáticos como Indonésia, Vietnã e Bangladesh.
Com grande volume disponível, o trigo argentino mantém alta competitividade e pressiona as cotações no mercado brasileiro, reduzindo a atratividade do cultivo para produtores nacionais.
Logística global também muda o mercado -Além da oferta elevada, mudanças nas rotas de transporte internacional também têm influenciado o comércio global de grãos.Segundo o analista, o fluxo de navios pelo Mar Vermelho caiu mais de 50%, enquanto as rotas alternativas pelo Cabo da Boa Esperança cresceram cerca de 200%. Essa mudança aumenta o tempo e o custo do transporte para exportadores da Europa e da região do Mar Negro.
Nesse cenário, o trigo argentino acaba ganhando vantagem logística em alguns mercados. Para o Brasil, a expectativa é que fatores internos, como a volatilidade cambial típica de anos eleitorais, possam ter maior influência sobre os preços domésticos a partir de maio.
Siga o portal RuralNews nas redes sociais
Acompanhe as principais notícias do agro em tempo real.
