O mercado internacional de trigo encerrou a última semana em forte arrancada e alcançou as cotações mais altas dos últimos três anos na Bolsa de Chicago (CBOT), acumulando quatro semanas consecutivas de valorização. De acordo com a análise semanal da TF Agroeconômica, o contrato de vencimento dezembro/26 fechou cotado a 784,00 centavos de dólar por bushel (+3,06% no dia e alta semanal de 12%), enquanto o trigo duro de Kansas disparou para 827,75 centavos por bushel (+16,66% no acumulado de quatro semanas).
O principal gatilho para o rali global é a severa restrição logística no Leste Europeu. O acirramento de ataques militares entre Rússia e Ucrânia contra estruturas portuárias e petroquímicas paralisou mais de 95% da capacidade operacional de escoamento no Mar Negro e no Mar de Azov justamente no pico pós-colheita. Sem conseguir exportar por rotas marítimas convencionais — e diante dos custos proibitivos das alternativas pelo Ártico e Báltico —, grandes volumes da região estão retidos, forçando importadores do Norte da África, Oriente Médio e Ásia a disputar cargas nos Estados Unidos e na América do Sul.
Safra de trigo cai 26% e indústria alerta para alta nos custos
Ataques no Mar Negro e quebra no Mercosul pressionam mercado de trigo
Oferta no Mercosul encolhe 22,7% e pressiona o mercado interno
O cenário internacional repercute diretamente no balanço de abastecimento brasileiro. Projeções consolidadas pelo departamento de análise da TF Agroeconômica apontam que a oferta total de trigo no Mercosul terá um recuo de 22,69% na temporada 2026/27, saindo de 38,43 milhões de toneladas para 29,62 milhões de toneladas, reflexo da redução de área e perdas produtivas na Argentina, no Paraguai e no Sul do Brasil.
No mercado doméstico, os estoques remanescentes da safra velha estão praticamente esgotados nos moinhos, e a entrada da safra nova ocorre de forma muito lenta e pontual. No Rio Grande do Sul, a disponibilidade de novos lotes de trigo local só deve ganhar volume em novembro, com as lavouras ainda enfrentando riscos fitossanitários decorrentes do excesso de umidade. Já no Paraná, a colheita inicial revela boa qualidade tecnológica (Falling Number acima de 300 e glúten superior a 30%), mas os agricultores recuam das vendas físicas à espera de cotações ainda maiores no mercado spot.
Disparidade entre porto e interior abre janela de hedge
Um dos dados mais marcantes levantados pela TF Agroeconômica é o forte descolamento entre a paridade internacional e o mercado físico brasileiro. O fechamento da CBOT para dezembro/26 equivale a uma remuneração de R$ 89,86 por saca no porto (cerca de R$ 81,00/saca no interior), enquanto as tradings e moinhos no mercado físico interno ofertam cerca de R$ 74,98 por saca para a mesma data de entrega.
Essa diferença de quase R$ 15,00 por saca sinaliza uma oportunidade expressiva para os triticultores protegerem suas margens via operações de hedge no mercado futuro antes do avanço pleno da colheita.
Moinhos repassam custos e reajustam farinhas em até 13%
Na ponta industrial, a escalada nos custos de reposição da matéria-prima já começou a chegar às prateleiras e padarias.
Moinhos da Região Sul relataram aumento de demanda e necessidade de reajustes imediatos, com as farinhas de panificação no varejo registrando virada de tabela com alta de 13%, enquanto os reajustes de setembro para a indústria de massas e biscoitos ficaram entre 5% e 7%, com previsão de novo repasse de 5% em outubro, somados ao farelo de trigo, que disparou para a faixa de R$ 950 a R$ 1.100 a tonelada, impulsionado pela menor oferta de moagem e pela valorização do milho na nutrição animal.
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