Ainda sem um cronograma definido para a retomada plena das exportações de carne bovina para a União Europeia e na expectativa pela "virada de cota" que permita a reabertura imediata das compras pela China ainda neste mês, a Comissão Técnica (CT) de Bovinocultura de Corte do Sistema FAEP reuniu produtores e lideranças para analisar o panorama comercial global. Os dados consolidados e os gargalos da conjuntura foram apresentados pelo especialista da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rafael Lima Filho.
Conforme a avaliação apresentada na reunião, o ano de 2026 impôs fortes testes à cadeia pecuária, marcado pelo esgotamento antecipado da cota tarifária chinesa e pela implementação de exigências sanitárias do bloco europeu relativas à restrição do uso de antimicrobianos. Apesar desse ambiente adverso, a balança comercial brasileira de carne bovina sustentou números expressivos em receita cambial: entre janeiro e setembro, o país movimentou US$ 12,97 bilhões (+14,1%), mesmo com um volume físico de 2,11 milhões de toneladas ligeiramente inferior (-1,5%) ao do ciclo prévio, puxado pela valorização de 15,9% no preço médio da tonelada exportada. O Brasil preserva a condição de maior exportador global, concentrando 31% do comércio internacional da proteína, com o Paraná posicionado entre os dez principais polos de produção nacional.
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A China, principal compradora do produto nacional ao absorver 42,5% dos embarques acumulados até agosto, viu sua participação desabar para 5,6% em setembro. A cota anual de 1,1 milhão de toneladas com isenção tarifária foi atingida em agosto; em consequência, as compras despencaram 94,2% em setembro frente ao mesmo mês de 2025. Lima Filho explicou que volumes expressivos de carne brasileira aguardam estocados em câmaras frias no país asiático, onde o custo de armazenagem é mais baixo, na expectativa de liberação da nova janela até o final de outubro.
Em contrapartida, o mercado da União Europeia permanece travado no curto e médio prazo. As indústrias precisam atender a protocolos rígidos de segregação de antimicrobianos e passar por processos formais de auditoria e vistoria — rota já percorrida pelas cadeias de frango e mel. As 19,7 mil toneladas exportadas em setembro correspondem a lotes previamente certificados antes da vigência da medida. Superada essa barreira sanitária, novos critérios ligados a desmatamento e bem-estar animal devem pautar a agenda regulatória europeia.
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A desaceleração pontual de Pequim provocou um redirecionamento expressivo dos fluxos marítimos para o mercado norte-americano. Em setembro, os Estados Unidos assumiram a liderança dos embarques brasileiros de carne in natura, respondendo por 21,5% do total. No acumulado até setembro, as vendas aos importadores norte-americanos saltaram 45% frente ao período equivalente do ano anterior. O fôlego comercial foi sustentado pela abertura de uma cota extra de 300 mil toneladas de carne magra (voltada à indústria de processamento e hambúrguer), vigente de 1º de setembro a 30 de novembro.
"Apesar das restrições, o panorama é bem positivo. Afinal, não tem carne abundante no mercado global", avaliou Rafael Lima Filho ao destacar a solidez da demanda externa.
Para mitigar a vulnerabilidade a decisões regulatórias unilaterais, o especialista da CNA pontuou que o caminho é diversificar a pauta para além dos grandes parceiros, prospectando mercados como Indonésia, Filipinas e Vietnã, além de consolidar presença em destinos com alto poder aquisitivo que pagam prêmios por qualidade superior, a exemplo de Japão e Coreia do Sul.
O presidente da Comissão Técnica de Bovinocultura de Corte da FAEP, Rodolpho Botelho, enfatizou a urgência de uma ofensiva diplomática e comercial:
"É importante que o Brasil abra mais mercado, diminua o mercado chinês e não fique na dependência só da China. O país tem a carne mais barata do mundo e os concorrentes não conseguem ocupar nosso espaço: a Austrália tem problemas climáticos, a Argentina se recupera de crise e o Uruguai já exporta 90% do que produz. Os EUA, por sua vez, têm o menor rebanho em 75 anos e preços recordes."
Nicho de Qualidade, ertificação e cruzamento Industrial
Ao tratar da realidade paranaense, Botelho destacou que o estado precisa compensar sua limitação geográfica com eficiência de ponta: com apenas 2,3% do território do país, a saída é focar cortes nobres e agregação de valor. Atualmente, apenas 11 propriedades rurais paranaenses atendem aos requisitos de rastreabilidade do Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina (Sisbov) para envio à Europa.
"A União Europeia não é grande em volume, mas funciona como cartão de visita para conquistar mercados como Japão e Coreia do Sul. O Paraná tem cooperativas e produtores com carne de excelência baseada em cruzamentos industriais. O nosso desafio é garantir oferta constante com regularidade e habilitar mais plantas frigoríficas locais para a exportação", frisou Botelho.
O presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, reforçou a importância do acompanhamento técnico diante da velocidade das transformações comerciais:
"Fóruns como a Comissão Técnica permitem que o produtor entenda o que está acontecendo no mercado e se prepare. A informação de qualidade ajuda a decidir melhor, sobretudo em um ano como este, de mudanças rápidas. O Sistema FAEP está lado a lado com o produtor de carne paranaense na busca por alternativas e por qualidade."
