Segundo o quarto boletim do Painel El Niño 2026-2027, divulgado em conjunto pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), há uma probabilidade de 95% de o fenômeno climático atingir intensidade muito forte no trimestre entre outubro e dezembro. A projeção oficial indica o aprofundamento das condições de estiagem e a elevação térmica nas regiões Norte e Nordeste, faixas geográficas que concentram áreas determinantes para a cacauicultura brasileira.
A combinação entre escassez de precipitações e calor atípico atinge em cheio as exigências fisiológicas do cacaueiro, espécie altamente dependente de umidade constante para manter sua produtividade. Pesquisa divulgada na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira já havia comprovado que a imposição de estresse hídrico contínuo provoca retração imediata na capacidade fotossintética e paralisa o crescimento vegetativo de mudas de cacau, reduzindo o pegamento em novos plantios e castigando pomares em fase produtiva.
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Adaptação agronômica e sistemas agroflorestais
Na avaliação do sócio-fundador da Verthic, consultoria socioambiental com atuação em projetos agroflorestais e de cacau na Amazônia, Fernando Vincenti, a defesa contra choques meteorológicos deve abranger a estrutura global do manejo agrícola.
"Quando falamos de produção agrícola diante de eventos climáticos extremos, precisamos considerar não apenas o impacto imediato sobre as plantas, mas também a capacidade de adaptação de todo o sistema produtivo. A falta de água, o calor excessivo e as mudanças no regime de chuvas podem dificultar o estabelecimento de novas mudas, aumentar a necessidade de manejo e comprometer a produtividade. A intensidade desses efeitos depende das condições de cada região e das características da plantação", pondera Vincenti.
Caso o quadro climático resulte em frustração de safra e menor entrada de amêndoas nos armazéns, a cadeia setorial tende a registrar pressões altistas de custos operacionais e repasses de preços, cujo reflexo final estará atrelado ao equilíbrio de estoques internacionais e ao ritmo de moagem dos concorrentes mundiais.
Planejamento prévio e mitigação de vulnerabilidades
Diante da iminência de impactos mais severos nas plantações, especialistas ressaltam que as estratégias de contenção de perdas precisam anteceder a consolidação do estresse no campo. Medidas estruturais como a seleção de cultivares mais tolerantes ao calor, correções conservacionistas de solo, cobertura vegetal para redução da evapotranspiração e a implantação de sistemas agroflorestais (SAFs) atuam como filtros biológicos para manter a integridade dos pomares.
"Não existe uma solução única para todos os territórios. Um projeto consistente exige conhecimento técnico, experiência de campo e uma equipe capaz de compreender tanto as características ambientais quanto a realidade social e econômica das comunidades envolvidas. É preciso planejar, acompanhar os resultados e adaptar as estratégias conforme as condições mudam", conclui Vincenti, reforçando que a integração entre conservação e ciência agronômica assegura a sustentabilidade das famílias e propriedades no longo prazo.
