No Maranhão, etanol de milho e sorgo dispara e atrai indústrias

Processamento industrial eleva produção estadual de biocombustível para 1,16 bilhão de litros, impulsionando a safrinha e a oferta de ração animal.
No Maranhão, etanol de milho e sorgo dispara e atrai indústrias
Planta da Agro Serra em São Raimundo das Mangabeiras no Maranhão Foto: Divulgação
Foto do autor Cássia Lombardi
Publicado em:

Segundo informações divulgadas pelo Sindicato das Indústrias de Cana, Açúcar e Álcool do Maranhão e Pará, entidade ligada à Federação das Indústrias do Estado do Maranhão, o Sul maranhense consolida uma nova fase econômica ao integrar o processamento fabril de cereais à tradicional produção de commodities agrícolas. A região, consolidada no cultivo de soja, milho, cana-de-açúcar e sorgo, expande a fabricação de biocombustíveis, geração de bioenergia e fornecimento de insumos para nutrição de rebanhos.

A virada de patamar ganhou escala operacional com a biorrefinaria da Inpasa em Balsas e avança com a planta da Agro Serra em São Raimundo das Mangabeiras, que obteve licença de instalação emitida pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão em agosto de 2026. O movimento projeta a transição do estado de polo fornecedor de matéria-prima para polo agroindustrial.

De acordo com o presidente do Sindicanálcool, Milton Campelo, o modelo complementa a produção tradicional sem rivalizar com os canaviais.

"Essa é uma tendência nacional que o Maranhão deve acompanhar. A tendência é que usinas instaladas em regiões produtoras de milho adotem unidades capazes de utilizar matérias-primas diferentes. Enquanto a indústria de cana depende do período da colheita, o milho pode ser armazenado e abastecer a produção durante os 12 meses do ano. Já o sorgo, há mais de 50 anos pesquisado pela Embrapa, é plantado na safrinha em sucessão à cultura da soja", destaca.

Conforme estudo do Banco do Nordeste elaborado com dados da Companhia Nacional de Abastecimento, a produção de etanol no Maranhão saltou de 167,4 milhões de litros no ciclo 2024/2025 para 1,16 bilhão de litros na temporada 2025/2026, patamar que posiciona o estado na liderança da região Nordeste.

Escala de processamento e coprodutos para pecuária

Com aporte de R$ 2,5 bilhões, a unidade fabril da Inpasa em Balsas processa anualmente 2 milhões de toneladas de cereais, alcançando entrega de 925 milhões de litros de etanol, 490 mil toneladas de Grãos Secos de Destilaria com Solúveis (DDG) para formulação de rações e 47 mil toneladas de óleo vegetal, além de cogeração energética por biomassa. O volume de DDG atende demandas de confinamentos bovinos, granjas de aves e suinocultura regional, dinamizando cadeias de frete e serviços especializados.

O gerente regional de Originação de Cereais da Inpasa, Irineu Piaia Junior, ressalta que a aquisição de insumos prioriza lavouras locais, com cerca de 90% dos grãos comprados na porção sul do estado e lotes complementares recebidos do Piauí e do Tocantins.

"Quanto mais oferta e demanda existirem, mais opções o produtor terá. A chegada de novos participantes dá liquidez à produção agrícola", aponta o gestor, lembrando que o comprador industrial local reduz despesas logísticas e retém riquezas no interior.

Na mesma linha de expansão, a Agro Serra projeta implantar em São Raimundo das Mangabeiras uma unidade com capacidade de moagem voltada a 600 mil litros diários de etanol com coprodutos forrageiros, amparada por licença válida até agosto de 2028.

Segundo a sócia administradora e diretora Comercial e Financeira da Agro Serra e vice-presidente da FIEMA, Cíntia Ticianeli, o planejamento exige cautela com o custo do capital. A executiva detalha que a companhia avalia opções de financiamento em fundos constitucionais e acompanha as diretrizes da Reforma Tributária sobre a competitividade industrial do setor.

Sorgo consolida janela de safrinha com menor risco hídrico

O sorgo granífero já representa cerca de 10% da demanda da usina em Balsas, índice condicionado pelo volume colhido no estado. O chefe adjunto de Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa Milho e Sorgo, Frederico Botelho, observa que a barreira histórica da cultura sempre esteve na comercialização.

"O principal balizador para o uso de qualquer cultura é o mercado", afirma Botelho, indicando que a aproximação de biorrefinarias com contratos futuros garantiu previsibilidade financeira para o plantio.

Na dinâmica das fazendas, o cereal ocupa preferencialmente a safrinha sobre áreas colhidas de soja quando a janela para o milho se fecha ou apresenta risco severo de seca. Em lavouras maranhenses, a área cultivada de sorgo atinge 80 mil hectares com colheita estimada em 268 mil toneladas pela Conab, salto de 115% frente ao ciclo anterior.

O pesquisador enfatiza a preservação ambiental do sistema produtivo.

"Nós não estamos falando de ocupação de novas áreas ou de desmatamento. Tudo isso ocorre em áreas que já são cultivadas, principalmente com soja. O milho continuará sendo o principal produto para a produção de etanol de cereais no Brasil", reforça, citando que o grão aproveita talhões antes mantidos apenas sob cobertura vegetal.

No panorama do comércio exterior, embarques pelos portos do Itaqui e de Santos registraram momentos em que o sorgo superou a cotação do milho em 2026. O país ocupa a terceira posição entre os produtores globais da cultura, com 7,3 milhões de toneladas colhidas em 2,2 milhões de hectares, atrás dos Estados Unidos e da Nigéria, com projeção técnica de alcançar a liderança mundial até 2030.

Ensaios agronômicos e potencial bioenergético

Por meio de cooperação técnica estabelecida entre Embrapa e Inpasa com vigência até 2027, pesquisadores avaliam o desempenho de variedades de sorgo sob as condições de solo e clima do Maranhão e de Mato Grosso do Sul, realizando capacitações e transferências tecnológicas aos produtores.

Além do grão amiláceo, a pesquisa avança sobre o sorgo biomassa para geração de calor industrial. Com ciclo produtivo de seis meses frente a cerca de seis anos do eucalipto, a espécie produz matéria densificada que já é testada como briquete energético em indústrias no Ceará, despontando como opção para diversificar as fontes térmicas das caldeiras fabris.

E32 eleva a demanda obrigatória por biocombustível

O ritmo industrial no Nordeste ocorre em paralelo às novas exigências legais da matriz de combustíveis brasileira. Após a elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 30% em agosto de 2025, o teor foi ajustado temporariamente para 32% (E32) a partir de 1º de agosto de 2026 por prazo de 180 dias, prorrogável por igual período.

Estimativas do Ministério de Minas e Energia apontam que a adição ampliada reduz a necessidade de importação de gasolina comum em 900 milhões de litros ao ano, abrindo uma demanda extra de aproximadamente 1 bilhão de litros de etanol no mercado interno e consolidando a ligação entre as lavouras do interior, a malha ferroviária de Porto Franco e os embarques do Porto do Itaqui.

Comentários

Siga o portal RuralNews nas redes sociais

Acompanhe as principais notícias do agro em tempo real.

Esta reportagem foi produzida pela equipe editorial do RuralNews com base em informações de fontes oficiais e dados públicos. As informações são revisadas antes da publicação.
Encontrou erros no texto? Envie-nos um email informando: editoria@ruralnews.agr.br
Logomarca RuralNews
© 2026 Portal Rural News - CNPJ 01.111.959/0001-67 - Todos os direitos reservados.

#agrootempotodo

O Portal Rural News é uma fonte jornalística especializada no agronegócio nacional. Traz notícias em tempo real sobre o Plano Safra, cotações diárias de soja e milho, mercado físico do boi, tecnologia e informações importantes para o dia a dia do produtor rural brasileiro. Diariamente produzimos e publicamos reportagens, vídeos, artigos de opinião e muito mais! Através de nossas editorias regionais nos estados de Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, e Nordeste .
Alguns conteúdos exclusivos para usuários cadastrados podem ser acessados gratuitamente pela área de login, que pode ser feita também pelo email do Google (Gmail).

Contato:

REDAÇÃO:
(45) 3037-7829 - (45) 98803-5294 - editoria@ruralnews.agr.br
DEPARTAMENTO COMERCIAL:

99972-6113 - comercial@ruralnews.agr.br

SUCURSAL EM GOIÁS:

(62) 99973-3139 - goias@ruralnews.agr.br

SUCURSAL NO RIO GRANDE DO SUL:

(54) 98132-5338 - riograndedosul@ruralnews.agr.br

Assine nossa newsletter

Receba resumos de notícias diários

Siga-nos nas mídias sociais:




Quem somos
Nossa equipe
Contato
Política de Privacidade

CLIMA
Atualizando clima das potências do agro...