O mercado de leite no Brasil registrou retração nas cotações pagas aos produtores ao longo de setembro. De acordo com dados apurados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, o preço médio do leite cru recebido por laticínios e cooperativas recuou 5% na comparação com o mês de agosto, fechando na referência de R$ 2,76 por litro pela “Média Brasil”. Apesar da queda mensal, o valor praticado ainda acumula um crescimento real de 8,31% quando confrontado com o mesmo período do ano anterior (setembro de 2025), considerando valores corrigidos pela inflação oficial medida pelo IPCA.
A perda de força nos preços no campo decorre da conjugação de dois fatores determinantes: o avanço sazonal da captação interna e a forte concorrência externa. O Índice de Captação de Leite (ICAP-L) apurado pelo Cepea apontou um incremento de 2,16% de agosto para setembro, impulsionado principalmente pelo início do período chuvoso e pela recuperação das pastagens na Região Sudeste.
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No segmento de derivados, o reflexo da maior oferta de matéria-prima e do fluxo constante de compras internacionais atingiu os preços de balcão das indústrias. Levantamento do Cepea realizado em cooperação com a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) mostra que, no atacado do estado de São Paulo, o leite UHT registrou queda de 4,76%, o leite em pó fracionado caiu 4,38% e o queijo muçarela recuou 2,77% em setembro.
Salto nas importações aprofunda o déficit comercial
A pressão deflacionária sobre o atacado nacional tem como combustível principal a entrada maciça de produtos estrangeiros. Dados compilados pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex) revelam que as importações brasileiras de produtos lácteos subiram 8,38% entre agosto e setembro, atingindo o montante expressivo de 249,6 milhões de litros em equivalente-leite (EqL). Embora as exportações brasileiras também tenham avançado 6,05% no período, o volume embarcado para fora somou modestos 5,57 milhões de litros em EqL, aprofundando o déficit da balança comercial de lácteos em 8,4% no comparativo mensal.
A entrada massiva de queijos e leite em pó de países vizinhos infla os estoques das distribuidoras brasileiras e reduz a demanda das indústrias processadoras por compras adicionais no mercado à vista (spot).
Custo de alimentação sobe no cocho
Enquanto o faturamento da porteira para fora recua, o pecuarista lida com o encarecimento da produção da porteira para dentro. Em setembro, o Custo Operacional Efetivo (COE) da atividade leiteira voltou a apresentar alta, subindo 0,46% na “Média Brasil”.
O movimento foi puxado pela valorização dos insumos que compõem a nutrição animal. O subgrupo de concentrados teve alta de 0,84% no período, refletindo a sustentação das cotações de mercado do grão de milho, da soja e do farelo proteico.
Para o curto prazo, o Cepea projeta que a continuidade da recuperação sazonal da safra de leite e a fragilidade nas cotações dos derivados no atacado manterão os preços ao produtor sob forte pressão baixista. Contudo, analistas ponderam que os desdobramentos climáticos atrelados ao fenômeno El Niño nos meses de verão podem conter o potencial de crescimento da oferta em determinadas bacias produtoras, estabelecendo um piso para as desvalorizações ao longo do encerramento do ano.
