Recuo no Green Deal Europeu e os impactos no agronegócio brasileiro
Roberto Araújo*
As mudanças na política ambiental e agrícola da União Europeia (UE), anunciadas em fevereiro de 2025, tiveram repercussões significativas no agronegócio global, especialmente para o Brasil, um dos principais fornecedores de produtos agropecuários para o bloco europeu. Em resposta aos intensos protestos dos agricultores, a UE recuou na implementação da estratégia Farm to Fork (Do Campo à Mesa) e flexibilizou diversos aspectos do Green Deal (Acordo Verde Europeu). Essas decisões não apenas frustraram ambientalistas e políticos populistas verdes, mas também abriram novas oportunidades para o setor agroexportador brasileiro, que vinha enfrentando barreiras cada vez mais rígidas.
Além da pressão exercida pelos agricultores europeus, a mudança de postura da Comissão Europeia também foi influenciada pelo novo governo de Donald Trump nos Estados Unidos. Com uma agenda abertamente protecionista e cética em relação às políticas climáticas globais, Trump retirou novamente os EUA do Acordo de Paris e reimpôs tarifas sobre produtos agrícolas e industriais europeus e chineses, reacendendo uma guerra tarifária que impactou diretamente a UE e o Brasil.
O que mudou na política ambiental e agrícola da UE?
O Green Deal, lançado em 2019, estabelecia metas ambiciosas para tornar a Europa neutra em carbono até 2050. Já a estratégia Farm to Fork, apresentada em maio de 2020, buscava tornar os sistemas alimentares mais justos, saudáveis e sustentáveis. No setor agrícola, isso significava reduzir o uso de pesticidas e fertilizantes, expandir a agricultura orgânica e impor critérios rigorosos para a importação de produtos agropecuários.
No entanto, os protestos massivos de agricultores europeus entre 2023 e 2024, aliados aos impactos da Covid-19, à guerra na Ucrânia, à alta inflação e, mais recentemente, à guerra tarifária iniciada pelos EUA sob Trump, forçaram a Comissão Europeia a revisar essas políticas. Entre as mudanças anunciadas, destacam-se:
Cancelamento da meta de reduzir o uso de pesticidas em 50% até 2030; Retirada completa do Regulamento de Uso Sustentável de Pesticidas, proposto em 2022 e abandonado em 2024; Flexibilização das exigências ambientais para concessão de subsídios agrícolas na UE; Fim da obrigatoriedade de rótulos ambientais nos alimentos, substituindo-os por selos de origem e bem-estar animal; Relaxamento de regras que limitavam o uso de terras agrícolas dentro da UE; Critérios mais flexíveis para importação de produtos agropecuários, reduzindo exigências ambientais e sanitárias.
Essas mudanças indicam uma priorização da segurança alimentar em detrimento de metas ambientais mais rigorosas, trazendo impactos diretos para países exportadores como o Brasil.
Impactos no agronegócio brasileiro
Para o Brasil, esse novo cenário pode significar menos barreiras comerciais e maior competitividade no mercado europeu. A UE é um dos principais destinos das exportações brasileiras de soja, café, celulose, suco de laranja e carnes, mas as exigências ambientais crescentes vinham dificultando a manutenção e a ampliação desse comércio.
Com a flexibilização dos requisitos de sustentabilidade e rastreabilidade, produtores brasileiros terão mais tempo para se adaptar às novas exigências, sem precisar cumprir imediatamente as normas mais rígidas que estavam previstas no Green Deal.
Além disso, a revogação da meta de redução de pesticidas e o afrouxamento das regras de uso do solo dentro da própria Europa podem reduzir a pressão sobre os importadores europeus, que antes exigiam certificações ambientais mais severas dos fornecedores estrangeiros. Isso pode beneficiar produtores brasileiros que ainda não implementaram certificações ambientais ou mecanismos para assegurar a origem sustentável da produção.
Outro impacto relevante é a valorização do agronegócio brasileiro em relação ao europeu. Com menos subsídios vinculados a práticas ambientais, os agricultores europeus podem perder competitividade frente a fornecedores externos, levando ao aumento das importações de alimentos de países como o Brasil.
A COP30, que ocorrerá em Belém (PA) de 10 a 21 de novembro de 2025, será uma oportunidade para o Brasil destacar avanços em tecnologias e práticas sustentáveis, como: