Conflito no Oriente Médio pressiona mercados globais
Relatório da StoneX aponta que tensões no Oriente Médio, custos de energia e incertezas macroeconômicas ampliam a volatilidade e influenciam diretamente preços, logística e decisões no mercado global
A escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã passou a redesenhar o cenário global das commodities no segundo trimestre de 2026, colocando o risco geopolítico no centro das decisões de mercado. A avaliação faz parte do relatório trimestral divulgado pela StoneX, que aponta uma mudança estrutural nas expectativas, com impactos que vão da energia aos alimentos.
Segundo a análise, o ambiente global já vinha sendo marcado por incertezas, mas ganhou uma nova dimensão com o avanço das tensões no Oriente Médio. O conflito ampliou os riscos sobre cadeias produtivas e logísticas, elevando custos de produção e aumentando a volatilidade em diferentes mercados. Além disso, políticas comerciais mais imprevisíveis e ruídos macroeconômicos vêm contribuindo para o redesenho das relações internacionais e da dinâmica de oferta e demanda.
Um dos principais pontos de atenção é o Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% da oferta global de petróleo e gás natural liquefeito, além de volumes relevantes de fertilizantes. A instabilidade na região tem provocado impactos diretos na logística marítima e nos custos energéticos, com reflexos imediatos sobre a produção agrícola em diversas partes do mundo.
De acordo com Vitor Andrioli, gerente de Inteligência de Mercado da StoneX Brasil, o cenário atual exige uma visão integrada dos mercados. Ele destaca que o choque geopolítico ultrapassa o setor de energia e se espalha por fretes, fertilizantes e custos industriais, influenciando diretamente os preços de alimentos e matérias-primas.
O relatório também chama atenção para o ambiente macroeconômico, com incertezas relacionadas à política monetária dos Estados Unidos e à sucessão no comando do Federal Reserve. Esse contexto adiciona volatilidade aos mercados de câmbio e renda fixa, com possíveis reflexos para economias emergentes como o Brasil, especialmente diante de fatores internos como o cenário fiscal e eleitoral.
No mercado de grãos, o início do plantio no Hemisfério Norte mantém o clima dos Estados Unidos como fator central na formação de preços, agora combinado a custos mais elevados de energia e fertilizantes. Esse cenário tende a sustentar as cotações, ao mesmo tempo em que pressiona as margens dos produtores.
Já no segmento de fertilizantes, o período que tradicionalmente favoreceria compras mais estratégicas passa a ser marcado por incertezas quanto à oferta e aumento dos custos logísticos, influenciados diretamente pela instabilidade no Golfo Pérsico.
No setor de energia, o componente geopolítico segue como principal vetor de curto prazo. Mesmo em cenários de trégua, os impactos sobre produção e transporte tendem a persistir, mantendo o mercado sensível a novos desdobramentos do conflito.
Entre as commodities agrícolas, o algodão caminha para um cenário de menor sobreoferta, enquanto o café pode enfrentar pressão com a entrada da nova safra brasileira. No cacau, a recomposição da oferta global, especialmente na África Ocidental, aponta para uma acomodação nos preços.
Nos metais, o cenário é misto. A restrição de oferta sustenta parte das cotações, mas o ambiente de juros elevados e a busca por liquidez em dólar, intensificada pelo conflito, têm pressionado metais preciosos como ouro e prata.
No câmbio, o real brasileiro tem mostrado certa resiliência, apoiado pelo perfil exportador de petróleo do país. Ainda assim, permanece exposto à combinação entre diferencial de juros, cenário doméstico e evolução das tensões no Oriente Médio, fatores que devem continuar influenciando os mercados nos próximos meses.