A resposta a um surto sanitário de grandes proporções no Mediterrâneo quebrou um monopólio histórico na União Europeia. Pela primeira vez na história, um Estado-membro do bloco comunitário autorizou a importação e o uso de vacinas contra a febre aftosa formuladas e fabricadas na Argentina. A remessa pioneira foi executada pela multinacional de biotecnologia animal Biogénesis Bagó para abastecer a campanha emergencial conduzida pelo serviço veterinário do Chipre, rompendo a tradição do mercado europeu de recorrer exclusivamente a indústrias farmacêuticas sediadas no continente.
A mobilização internacional decorre da suspensão do reconhecimento do Chipre como território livre de febre aftosa sem vacinação pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), após a confirmação laboratorial de focos ativos na região de Lárnaca. Diante da disseminação rápida do vírus e dos custos astronômicos associados ao sacrifício sanitário contínuo de rebanhos, as autoridades cipriotas optaram por adotar a imunização em massa para estancar os prejuízos e evitar o colapso econômico dos pecuaristas.
Mapa interdita fábrica clandestina de ração em SC
Mapa disponibiliza quase 10 milhões de doses contra clostridioses em agosto
Goiás lidera plano de ação contra brucelose e tuberculose bovina
O desafio técnico do episódio é acentuado pelo agente causador: trata-se do sorotipo SAT1, variante originária do sul do continente africano e que registrou detecções recentes na ilha de Lesbos (Grécia), além de rebanhos na Turquia e em Israel. O perfil biológico do SAT1 exige imunizantes específicos, tornando ineficazes as formulações comerciais convencionais distribuídas em outras partes do planeta. A eficácia da vacina argentina foi atestada em testes pelo Wageningen Bioveterinary Research, centro de referência global, comprovando 100% de proteção contra a cepa SAT1 do topotipo III em esquemas de duas doses e 86% com dose única.
Escala produtiva e vigilância no Brasil
A rápida mobilização para atender ao Chipre ancora-se no complexo industrial da Biogénesis Bagó, que produz 300 milhões de doses anuais de imunizantes contra aftosa e gere um banco de reserva estratégica com capacidade equivalente a 110 milhões de doses. A operação fortalece a expansão da empresa no mercado comunitário, onde já mantém estrutura operacional e fabril instalada na Espanha, inserindo-se em uma malha global que engloba 450 milhões de doses totais ao ano distribuídas por mais de 70 nações.
O episódio na Europa acende o alerta sobre a necessidade de rigor permanente nas fronteiras e na defesa agropecuária de países que suspenderam a imunização. No Brasil, todo o território nacional alcançou o reconhecimento da OMSA como livre de febre aftosa sem vacinação em 2025. O Ministério da Agricultura e as entidades do setor produtivo reiteram que o evento no Mediterrâneo é pontual, responde a uma dinâmica epidemiológica isolada daquela localidade e não compromete a biosseguridade ou as certificações sanitárias internacionais das carnes brasileiras.
Siga o portal RuralNews nas redes sociais
Acompanhe as principais notícias do agro em tempo real.
