Celebrado em 31 de outubro, o Dia Internacional do Arroz traz à tona um contraste marcante no agronegócio de Mato Grosso: embora figure na quarta colocação entre os principais produtores do cereal no país, o estado viu sua participação encolher na última década. De acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) analisados pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), a área cultivada com o grão recuou 51,41% entre as safras 2015/2016 e 2025/2026, despencando de 152,50 mil para 74,10 mil hectares.
Mesmo com um salto de 27,71% na produtividade média por hectare em virtude do melhoramento genético e da profissionalização técnica, o ganho de rendimento não compensou a perda de espaço para a soja e o milho. Como reflexo direto, a colheita mato-grossense caiu 37,94% no período, saindo de 438,60 mil toneladas para 272,20 mil toneladas no ciclo 2025/2026.
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Incerteza comercial e gargalo na armazenagem
O desestímulo à orizicultura no cerrado está diretamente atrelado à falta de ferramentas de proteção financeira e à logística interna. Ao contrário da soja, cuja comercialização futura permite travar custos e margens antes mesmo do plantio, o arroz é negociado majoritariamente no mercado disponível.
“Você coloca ele na terra, faz todo o investimento, todo o trabalho e, na hora da colheita, você descobre o preço que vai estar”, relata Allan Mafra, produtor rural no município de Porto dos Gaúchos. Segundo Mafra, as cotações sofrem forte deflação sazonal no momento da colheita e voltam a se valorizar meses depois. Sem capital de giro ou silos próprios para reter os lotes, o agricultor fica refém dos preços deprimidos de balcão.
Soma-se a isso a infraestrutura deficitária. Em várias regiões de Mato Grosso, praticamente toda a carga colhida converge para um único entreposto credenciado a secar e receber o grão, o qual é repassado a grandes indústrias beneficiadoras. O agricultor Darlan Welter reforça o peso desse gargalo operacional: “Os principais desafios para produzir arroz em Mato Grosso são a logística e a distância dos armazéns. Não é qualquer armazém que sabe trabalhar com o cereal”. Welter aponta ainda o desgaste severo que a palha do arroz provoca nas colheitadeiras, dificultando a locação de frotas terceirizadas durante a janela de corte.
Dinâmica nacional e rotação agronômica
No âmbito nacional, o comportamento seguiu rumo divergente. Impulsionada pelo incremento de 38,31% na produtividade, a produção brasileira avançou 4,46% na última década, totalizando 11,08 milhões de toneladas em 2025/2026. A Região Sul concentra cerca de 83% do montante, liderada pelo arroz irrigado do Rio Grande do Sul (7,82 milhões de toneladas). Em paralelo, as exportações brasileiras movimentaram US$ 388,66 milhões entre janeiro e setembro de 2026 (1,31 milhão de toneladas), fatia na qual Mato Grosso participou com US$ 2,03 milhões em remessas externas.
Apesar das pressões comerciais, o cultivo ganha respaldo técnico como ferramenta agronômica. O assessor de Agricultura da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Alex Rosa, enfatiza o papel do arroz de terras altas em sistemas integrados e de abertura de áreas: a espécie tolera índices mais altos de acidez e saturação por alumínio se comparada à soja, promovendo estruturação radicular do solo, quebra do banco de pragas e ciclagem de nutrientes.
Rosa alerta, contudo, que os benefícios exigem planejamento de longo prazo: “A repetição do arroz na mesma área, sem o intervalo necessário, pode aumentar a incidência de doenças, como a brusone. Por isso, a diversificação precisa de planejamento técnico”. Em Mato Grosso, a semeadura das áreas de sequeiro deve ocorrer entre outubro e dezembro, sincronizando o enchimento reprodutivo de grãos com o ápice do período chuvoso.
