Acordo UE–Mercosul amplia acesso, mas mantém limites ao agro brasileiro
Tratado cria maior área comercial do mundo e traz ganhos estratégicos ao Brasil, embora preserve cotas e salvaguardas para produtos sensíveis
Acordo entre União Europeia e Mercosul cria maior área de livre comércio do mundo e redefine relações comerciais do agronegócio. Foto: Ministério da Agricultura e Pecuária / Divulgação
Após 25 anos de negociações, a União Europeia e o Mercosul assinaram, em janeiro de 2026, um acordo de livre comércio que cria a maior área comercial do mundo. O tratado elimina tarifas de mais de 90% dos produtos negociados entre os blocos e envolve um mercado de 718 milhões de pessoas. Além disso, o conjunto das economias representa cerca de 20% do PIB global.
Para o Brasil, o acordo tem importância estratégica. A União Europeia é o segundo principal destino das exportações do agronegócio brasileiro. Nesse contexto, o pacto contribui para reduzir a dependência do mercado chinês e ampliar a diversificação comercial. A avaliação consta do Radar Agro, relatório da Consultoria Agro do Itaú BBA.
Abertura gradual e preservação de setores sensíveis
Pelos termos definidos, o Mercosul vai zerar tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos. Por outro lado, a União Europeia eliminará tarifas para 95% dos produtos do bloco sul-americano em até 12 anos. No entanto, a abertura ocorre de forma gradual, com regras específicas para setores sensíveis.
No agronegócio, produtos como carne bovina, frango, açúcar, arroz e etanol terão acesso ao mercado europeu por meio de cotas. Dentro desses volumes, as tarifas serão reduzidas ou eliminadas. Ainda assim, fora das cotas, permanecem tarifas adicionais, o que limita ganhos imediatos para alguns segmentos.
Ganhos estratégicos no médio e longo prazo
Mesmo com restrições, alguns produtos brasileiros ganham competitividade. Café, suco de laranja e frutas terão tarifas eliminadas ao longo do período de implementação. Em 2025, o Brasil exportou cerca de US$ 25 bilhões em produtos do agro para a União Europeia. Café, soja, farelo, celulose e suco de laranja responderam por quase 70% dessa receita.
Além disso, o acordo prevê uma cláusula de salvaguarda. Por esse mecanismo, a União Europeia poderá reintroduzir tarifas de forma temporária se houver aumento excessivo das importações ou queda significativa de preços internos. Dessa forma, o bloco busca proteger cadeias produtivas mais vulneráveis.
Ainda assim, os principais ganhos tendem a se materializar no médio e no longo prazo. A maior previsibilidade regulatória pode estimular investimentos, incentivar a agregação de valor e fortalecer a inserção do Mercosul em cadeias globais. Contudo, o avanço dependerá da capacidade do setor em atender exigências sanitárias, ambientais e de rastreabilidade cada vez mais rigorosas.
