Produção de suínos sente pressão do milho e da guerra no Oriente Médio
Com abates 2,5% maiores no primeiro bimestre e produção em alta de 5,54% em 2025, setor ganha fôlego nos preços, mas enfrenta avanço dos custos da ração e da logística
Após dois meses de queda, o preço do suíno parou de recuar em março, mas a estabilidade nas cotações não significa alívio para o produtor. A TF Agroeconômica aponta que o setor entra em um período mais delicado, com pressão crescente nos custos de produção, puxada pelo atraso no plantio da segunda safra de milho e pelos efeitos indiretos da guerra no Oriente Médio sobre combustíveis, fertilizantes e logística.
Segundo o boletim, o mercado encontrou um ajuste recente entre oferta e demanda, após um início de ano mais fraco para as cotações. No primeiro bimestre, o abate de suínos cresceu cerca de 2,5% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto a produção brasileira de carne suína avançou 5,54% em 2025, ampliando a disponibilidade interna e ajudando o mercado doméstico a absorver parte do excedente. O consumo per capita, inclusive, já supera 20 quilos por ano.
Na prática, isso explica por que o mercado conseguiu interromper a queda, mas ainda sem força suficiente para recuperar rentabilidade de forma mais consistente.
Milho mais caro volta ao centro da conta
O principal ponto de atenção para a suinocultura, neste momento, está na ração. A TF Agroeconômica destaca que o atraso no plantio da segunda safra de milho, responsável por grande parte da produção nacional, elevou as cotações do cereal nas últimas semanas e piorou a relação de troca entre o suíno vivo e os principais insumos.
No levantamento do boletim, o milho aparece a R$ 70,45 por saca, com alta de 1,32% no mês, enquanto o suíno no Paraná é cotado a R$ 6,63 por quilo, com leve variação positiva de 0,61% no mês. Mesmo com o animal mais firme, a valorização do grão pesa mais sobre o custo da dieta e reduz a folga operacional das granjas.
Para o produtor do Paraná — um dos principais polos de suinocultura do país — esse movimento é especialmente relevante, porque a atividade é altamente dependente do custo de alimentação. Quando o milho sobe e o suíno apenas estabiliza, a margem rapidamente encolhe.
Margens perto do ponto de equilíbrio
O boletimé direto ao afirmar que a relação de troca vem piorando mês a mês, especialmente desde outubro de 2025. Com isso, as margens da suinocultura permanecem bastante apertadas, próximas do ponto de equilíbrio, em um ambiente que mistura custo alto e incerteza para os próximos meses.
Além do milho, a cadeia sente os efeitos indiretos do cenário internacional. A guerra no Oriente Médio aumenta a volatilidade sobre combustíveis, fertilizantes e fretes, o que encarece desde a produção de grãos até o transporte da ração e o escoamento da proteína animal.
Esse impacto é ainda mais sensível para produtores integrados e independentes que já operam com margens estreitas, sobretudo em regiões onde a logística tem peso maior no custo final.
Concorrência com outras proteínas limita reação
Outro fator que impede uma recuperação mais forte do suíno é o comportamento das proteínas concorrentes. Segundo a TF Agroeconômica, a alta do boi gordo não foi totalmente repassada ao consumidor final, o que limita o espaço para uma valorização mais agressiva da carne suína no varejo. Ao mesmo tempo, o frango segue com preços em queda e enfrenta dificuldades extras por conta do conflito no Oriente Médio, um destino importante para as exportações brasileiras.
Esse cenário mantém o suíno em uma posição intermediária: já não cai como no começo do ano, mas também ainda não encontra ambiente para uma reação mais robusta de preços.
Setor entra em fase mais sensível
O quadro traçado pela TF Agroeconômica mostra que a estabilidade do suíno em março é um sinal positivo, mas insuficiente para devolver tranquilidade ao produtor. O setor entra em uma fase mais sensível, em que a evolução da safrinha de milho, o comportamento do clima em abril e a continuidade das tensões geopolíticas podem definir o tamanho da pressão sobre os custos no curto prazo.
Para o agro, a leitura é estratégica: se a segunda safra de milho atrasar mais ou tiver produtividade ameaçada, a cadeia de proteína animal pode sentir um novo aperto. E, no Paraná, onde milho e suinocultura caminham lado a lado, esse movimento tem efeito direto sobre a rentabilidade dentro da granja e sobre a competitividade da produção regional.