Clima mais quente favorece pragas e doenças e impõe novos desafios ao agro, aponta Embrapa
Pesquisadores alertam para aumento da severidade de doenças em lavouras até 2100, exigindo inovação e ação coordenada
Mosca branca em citros. Foto: Claudio Leone
O avanço das mudanças climáticas deve tornar as lavouras brasileiras mais vulneráveis a doenças e pragas. Um estudo da Embrapa aponta que até 2100, cerca de 46% das doenças agrícolas no Brasil devem se tornar mais severas, com impacto direto sobre culturas como soja, milho, arroz, café, hortaliças e frutas.
Segundo os pesquisadores, o aumento da temperatura e as alterações no regime de chuvas favorecem a disseminação de fungos, vírus e vetores, exigindo investimentos urgentes em pesquisa, monitoramento e controle fitossanitário. A análise foi feita com base em 304 patossistemas – interações entre patógenos e plantas hospedeiras – em 32 das principais culturas do país. Os fungos se destacam como as ameaças mais recorrentes, presentes em quase 80% dos casos.
Com o aquecimento global podendo ultrapassar 4,5°C em algumas regiões brasileiras até o fim do século, doenças como antracnose e oídio tendem a ganhar força.
A pesquisadora Francislene Angelotti, da Embrapa Semiárido, destaca que é preciso reforçar os sistemas de vigilância e acelerar a inovação científica. “Prever o comportamento das doenças em um cenário climático em transformação é um desafio que exige planejamento e adaptação”, afirma.
Vetores sob condições ideais
Além dos fungos, insetos vetores como mosca-branca, pulgões, tripes e cochonilhas também devem ganhar espaço. Com temperaturas mais elevadas, esses organismos têm ciclos de vida mais curtos e se tornam mais longevos, o que contribui para o aumento de suas populações.
Isso representa maior pressão sobre lavouras como tomate, batata, citros, banana e milho. “O calor favorece pragas mais persistentes e ativas por mais tempo”, explica Wagner Bettiol, da Embrapa Meio Ambiente.
Impacto sobre defensivo
O uso de defensivos químicos também tende a ser afetado. A eficácia de fungicidas pode diminuir com o aumento das temperaturas e a mudança na fisiologia das plantas, exigindo mais aplicações e aumentando os custos e os riscos ambientais. Esse cenário já acelera a busca por alternativas, como os agentes biológicos de controle.O Brasil é o maior produtor e consumidor mundial de biopesticidas e lidera em área agrícola sob controle biológico. A expectativa é que o mercado global desses produtos atinja US$ 19,49 bilhões até 2030, segundo a consultoria Research and Markets. No entanto, os bioinsumos também precisam evoluir.
“É urgente desenvolver bioherbicidas e produtos capazes de mitigar o estresse das plantas frente às mudanças climáticas”, diz Bettiol.
Monitoramento e ação conjunta
Diante do cenário, os pesquisadores recomendam uma resposta integrada, que envolva agricultores, instituições científicas e políticas públicas. Medidas como diversificação de cultivos, uso de tecnologias de manejo integradas e adoção de modelos de alerta precoce são consideradas essenciais.