Com déficit de chuva de 33%, MT tem início de safra crítico na soja

Lavouras de soja em Mato Grosso enfrentam estresse por estiagem no segundo início de ciclo mais seco em quase três décadas
Com déficit de chuva de 33%, MT tem início de safra crítico na soja
Aprosoja MT alerta para falta de chuvas em lavouras na fase reprodutiva. Foto: Aprosoja MT / Bruno Lopes
Foto do autor Cassia Lombardi
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O ritmo acelerado das plantadeiras em Mato Grosso oculta uma ameaça agronômica silenciosa que ainda passa ao largo das projeções mais otimistas de consultorias e agentes de mercado: a escassez crítica de precipitações. Um mapeamento técnico conduzido pela consultoria EnsoAg/SmartCampo a pedido da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), respaldado por dados orbitais de satélites da NASA, constatou que o estado registrou um volume pluviométrico acumulado de somente 186 milímetros entre 1º de setembro e 27 de outubro.

O índice situa-se 33% abaixo da média climatológica histórica para o intervalo (276 milímetros), configurando o segundo início de safra mais seco em toda a série de monitoramento de 27 anos, sendo superado apenas pelo cenário extremo vivenciado em 2024.

O estrangulamento hídrico agravou-se na janela entre 28 de setembro e 27 de outubro, período em que a média estadual de chuva somou 124 mm, perante os 189 mm habitualmente esperados — déficit de 34%. O estresse atinge dimensão territorial ampla: 66% da área mato-grossense registrou precipitações superiores a 25% abaixo do padrão histórico, e 22 dos 23 municípios analisados no estudo fecharam o intervalo com saldo negativo.

“O plantio avançou, mas isso não significa que a safra esteja garantida. Estamos vendo lavouras sentindo a falta de umidade, inclusive áreas semeadas mais cedo que já entraram na fase reprodutiva. O mercado olha para o ritmo do plantio e projeta uma grande produção, mas a realidade no campo exige muito mais cautela”, adverte o presidente da Aprosoja MT, Lucas Costa Beber.

Parecis e Médio-Norte sofrem maiores anomalias

A região Oeste, com destaque para a Chapada dos Parecis, reúne as situações de maior gravidade hídrica. Em Campos de Júlio, o acumulado nos últimos 30 dias avaliados foi de apenas 89 milímetros — desvio negativo de 56%, a menor marca pluviométrica da série histórica local para a época. Quedas drásticas semelhantes foram medidas em Brasnorte (80 mm, baixa de 54%), Comodoro (88 mm, -52%), Sapezal (90 mm, -47%) e Campo Novo do Parecis (-39%).

No coração produtivo do Médio-Norte, os termômetros elevados e o solo ressecado também castigam os talhões: Lucas do Rio Verde computou déficit de 44%, Sorriso recuou 35% e Nova Mutum ficou 33% aquém da normalidade.

Para além do volume insuficiente, a disparidade na distribuição temporal das pancadas agrava o estresse fisiológico das plantas. O Índice de Severidade de Seca (ISSE), apurado pelo algoritmo de balanço hídrico da EnsoAg, saltou para a média de 0,60 no encerramento de outubro — o segundo pior valor da série histórica para a semana de referência —, colocando 52% da área agrícola do estado na classe de solo moderadamente seco. Nos Parecis, o ISSE alcançou 0,65, enquanto no Sudeste atingiu 0,69 e no Centro-Sul, 0,68.

“Quando falta água numa fase decisiva do desenvolvimento da soja, existe risco para o potencial produtivo. Ainda é cedo para medir perdas ou antecipar o tamanho de qualquer redução na safra. Mas também é cedo para tratar como certa uma supersafra. Não podemos confundir área plantada com produção colhida”, pondera Costa Beber.

Precipitações residuais e barreiras no manejo

As pancadas observadas na virada para novembro amenizaram pontualmente a poeira, mas mantiveram o quadro deficitário: entre 28 de outubro e 1º de novembro choveu em média 28 milímetros, montante 22% inferior à régua dos cinco dias, com Parecis e Médio-Norte permanecendo com anomalia superior a 25%.

Vistorias técnicas da Aprosoja MT realizadas em eixos entre Gaúcha do Norte, Sorriso e o Oeste flagraram plantas murchas e estandes desuniformes. A entidade adverte que o solo seco e o ar quente reduzem a absorção e translocação de herbicidas e inseticidas, tornando os tratos culturais menos eficientes, favorecendo a pressão de pragas e daninhas e onerando os custos com pulverizações adicionais.

“Mato Grosso é o maior produtor de soja do Brasil e tem peso decisivo na oferta nacional. Por isso, é preciso olhar com responsabilidade para o que está acontecendo aqui. O produtor está fazendo sua parte, mas a chuva não está acompanhando. Não estamos anunciando quebra de safra. Estamos alertando que o otimismo das estimativas ainda precisa ser confirmado dentro da lavoura”, conclui o líder setorial.

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