Agro goiano resiste à crise do crédito e mantém produção
Setor cresce acima da média nacional, mas enfrenta pressão sobre margens e queda de produtividade na safra 2025/2026
Coletiva do Sistema Faeg, Senar e Ifag apresentou balanço de 2025 e perspectivas do agronegócio goiano para o próximo ciclo. Foto: Faeg / Divulgação
Mesmo diante de um cenário marcado por juros elevados, restrição ao crédito e avanço do endividamento rural, o agronegócio goiano manteve crescimento, empregos e produção em 2025. O panorama foi apresentado pelo Sistema Faeg, Senar e Ifag durante coletiva realizada nesta terça-feira (17), que reuniu a imprensa para divulgar o balanço do setor e as perspectivas para 2026.
Com o tema Resiliência e Insegurança no Agro Goiano, o encontro apresentou análises técnicas, dados econômicos e avaliações sobre os principais desafios enfrentados pelos produtores rurais. Além disso, o evento trouxe estimativas para o próximo ciclo agrícola, que indicam maior pressão sobre margens e rentabilidade.
Cenário econômico e desempenho de Goiás
No cenário internacional, a economia global cresceu 2,5% em 2025, segundo o Banco Mundial. Ainda assim, o comércio internacional e os investimentos seguiram pressionados. Esse movimento refletiu tensões geopolíticas, disputas comerciais e riscos estruturais, como o alto endividamento e a instabilidade das cadeias globais de abastecimento.
No Brasil, o PIB deve crescer 2,16%, conforme o Boletim Focus. Nesse contexto, o PIB agropecuário avançou 11,6% entre janeiro e setembro, de acordo com o IBGE. O mercado de trabalho mostrou resiliência, com taxa de desemprego de 5,6% em setembro. Ao mesmo tempo, a Selic permaneceu em 15%, enquanto o IPCA chegou a 4,46%, no teto da meta.
Em Goiás, os resultados superaram a média nacional. O PIB estadual cresceu 7,7% entre janeiro e abril de 2025, impulsionado principalmente pelo avanço de 16,8% do PIB agropecuário. A indústria também registrou crescimento de 2,3%. Além disso, o mercado de trabalho apresentou saldo positivo de 79.717 novos postos entre janeiro e setembro. Desse total, a agropecuária respondeu por 10.759 vagas, segundo o Caged.
O Valor Bruto da Produção alcançou R$ 120,9 bilhões, o que representa alta de 13,6% em relação a 2024. Soja, bovinocultura, milho e cana-de-açúcar concentraram 74% desse total, o que reforça o peso do agro na economia goiana.
Clima favorável, custos elevados e impacto na renda
As condições climáticas ao longo de 2024 e no início de 2025 favoreceram a produtividade, especialmente na soja e no milho segunda safra. No entanto, esse avanço não se converteu integralmente em renda. A elevação dos custos de produção, somada à pressão sobre os preços, reduziu os resultados econômicos no campo.
Na pecuária, o aumento do abate de fêmeas marcou o ano. Como consequência, os preços subiram e a arroba entrou em processo de estabilização. Por outro lado, a cadeia do leite enfrentou uma crise severa. Os preços pagos aos produtores ficaram abaixo de R$ 2,00 por litro, patamar insuficiente para cobrir os custos. Esse cenário afetou também as indústrias, especialmente as de queijos, e provocou desorganização da cadeia láctea.
Crédito restrito, comércio exterior e riscos para a safra 2025/2026
A restrição ao crédito intensificou o endividamento rural. Os pedidos de recuperação judicial saltaram de 20 em 2022 para 566 em 2024. Em 2025, até o segundo trimestre, já foram registrados 415 pedidos, o equivalente a 73% do total do ano anterior. Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais concentraram 59,4% dessas solicitações. Além disso, a inadimplência na carteira de crédito rural com recursos direcionados chegou a 11% em outubro.
No comércio exterior, o tarifaço em vigor desde agosto impactou diretamente produtos como carne bovina, açúcar, couros, café e pescados. A estimativa aponta perda de US$ 325,6 milhões nas exportações para os Estados Unidos. A carne bovina respondeu por quase metade desse impacto.
Para a safra 2025/2026, o cenário indica maior pressão sobre a rentabilidade, sobretudo na soja. A produtividade média deve cair cerca de 5%, enquanto o custo operacional segue elevado. Com isso, a renda por hectare tende a recuar de forma significativa, o que aumenta o risco econômico ao produtor rural.