Etanol pode atingir carbono negativo com novas tecnologias
Tecnologias como BECCS e biochar podem zerar ou negativar a pegada de carbono do etanol, aponta estudo da Embrapa e da Unicamp
O resultado de ambos evita que o carbono retorne à atmosfera. Na foto, pesquisa conduzida por cientistas do Nebraska. Foto: Embrapa / Divulgação
Estudo de cientistas da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostra que a adoção de tecnologias promotoras de emissão negativa é capaz de transformar radicalmente la pegada de carbono do etanol brasileiro, reduzindo-a a patamares próximos de zero ou até mesmo negativos.
A pesquisa avaliou como a integração de bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS) e com a aplicação de biochar em áreas agrícolas poderia ampliar os ganhos ambientais do RenovaBio. Apesar do alto potencial, os resultados mostram que a viabilidade depende de novos mecanismos de incentivo econômico e regulatório.
O BECCS captura o carbono biogênico emitido na produção de etanol e energia em usinas de cana-de-açúcar. Durante a fermentação e a queima de bagaço e palha, há liberação de CO₂, que pode ser capturado e injetado em formações rochosas subterrâneas. No Brasil, a Usina FS é pioneira na aplicação do BECCS. Já o biochar, obtido por pirólise, melhora as propriedades do solo e retém carbono de longo prazo.
A intensidade de carbono do etanol hidratado, hoje em 32,8 gCO₂e/MJ, poderia cair para 10,4 gCO₂e/MJ com BECCS e 15,9 gCO₂e/MJ com biochar. Em cenários mais ambiciosos, a captura também na combustão poderia levar a valores negativos, chegando a –81,3 gCO₂e/MJ.
Custos, barreiras e potencial climático
Apesar do potencial, nenhuma das mais de 300 usinas certificadas pelo RenovaBio usa essas tecnologias. O custo é o principal entrave. Enquanto o CBIO vale cerca de US$ 20 por tonelada de CO₂, o BECCS custa entre US$ 100 e US$ 200/tCO₂. O biochar custa cerca de US$ 427/tCO₂. Nos Estados Unidos, o crédito 45Q remunera até US$ 180/tCO₂, o que facilita a adoção.
A captura na fermentação é a opção mais promissora, pois o CO₂ é mais puro e fácil de coletar. A captura na combustão permitiria emissões negativas em larga escala, mas enfrenta custos altos e desafios de armazenamento.
O biochar pode sequestrar até 1,42 tCO₂e por tonelada aplicada e ainda melhorar a fertilidade do solo. Alguns experimentos, porém, indicam aumento temporário de CO₂ e impactos negativos quando aplicado em excesso.
Etanol competitivo na transição energética
Os pesquisadores compararam cenários com veículos movidos a etanol, gasolina e eletricidade. Mesmo sem tecnologias de emissão negativa, o etanol já emite menos que a gasolina. Com BECCS e biochar, o desempenho pode superar até carros elétricos carregados com eletricidade média do sistema brasileiro.
O RenovaBio incentiva a produção de biocombustíveis de baixa emissão por meio dos CBIOs, mas esse mecanismo pode ser insuficiente para viabilizar tecnologias caras. Políticas complementares e acesso ao mercado voluntário de carbono serão fundamentais.
A combinação de captura e biochar em todas as usinas certificadas poderia gerar até 197 MtCO₂e em créditos, equivalente a 12% das emissões brasileiras de 2022. O cenário mais provável, com BECCS apenas na fermentação, capturaria cerca de 20 MtCO₂e ao ano.
O estudo conclui que o Brasil tem condições de liderar a produção de combustíveis de emissão negativa. Como segundo maior produtor mundial de etanol e biodiesel, o país dispõe de infraestrutura robusta e políticas consolidadas. Com incentivos adequados, o etanol pode disputar espaço com fósseis, elétricos e hidrogênio verde na transição energética global.
